O seu nome pode não ser familiar junto do todos, mas é quase impossível nunca ter escutado algum do trabalho de John Williams: de "Tubarão" a "Star Wars" e "Indiana Jones" ou "Harry Potter", compôs as bandas sonoras de alguns dos maiores filmes da história do cinema.

Aos 93 anos e autor de mais de 100 bandas sonoras, é a pessoa viva mais nomeada para os Óscares (54 vezes) e ganhou cinco estatuetas, por "Um Violino no Telhado" (1971, adaptação), "Tubarão" (1975), "A Guerra das Estrelas"(1977), "E. T. - o Extra-Terrestre" (1982) e "A Lista de Schindler" (1993).

A sua gigantesca influência é reconhecida pelos seus pares: como recordou o American Film Institute ao anunciar a atribuição de um prémio pela carreira em 2015, "John Williams escreveu a banda sonora para as nossas vidas. Nota a nota, através de acordos e coros, o seu génio para casar música com filmes elevou a forma de arte para níveis sinfónicos e inspirou gerações de espectadores a serem enriquecidas pela magia dos filmes".

Mas quem não se deixa impressionar é o próprio compositor, que surpreendeu e "chocou" o autor Tim Greiving, que o entrevistou extensivamente para uma biografia que será lançada em breve, afirmando de forma direta e inequívoca: “Nunca gostei muito de música de cinema".

Autor de muitas peças de concerto, uma sinfonia e até do hino dos Jogos Olímpicos de Los Angeles em 1984, Williams explicou, citado pelo jornal The Guardian, que a “música de cinema, por melhor que seja – e geralmente não é, exceto por uns oito minutos aqui e ali… simplesmente acho que a música não está lá".

E acrescentou: "Aquilo que consideramos esta preciosa e grande música de cinema… estamos a recordá-la de uma forma nostálgica… Acho que a ideia de que a música de cinema tem o mesmo lugar na sala de concertos que a melhor música do cânone é uma noção errada. Muitas [músicas de cinema] são efémeras. São certamente fragmentárias e, até que alguém as reconstrua, não são nada que possamos sequer considerar como uma peça de concerto”.

Ao jornal britânico, o seu biógrafo mostrou que ficou mais do que surpreendido com o que ouviu.

"Os seus comentários são um pouco chocantes e não são falsa modéstia. Ele é genuinamente autodepreciativo e deprecia a 'música para cinema' em geral", disse, notando que Williams se referiu às suas bandas sonoras, mesmo as mais elogiadas, como "apenas um trabalho".

"Mas também não acho que devamos necessariamente levar as suas palavras à letra. Ele claramente levava o trabalho de compor música para filmes tão a sério como qualquer pessoa na história alguma vez levou", notou.

E esclareceu que "ele tem este preconceito interiorizado contra a música para cinema. É um tipo funcional de música, o que é engraçado porque acho que a sua música para cinema é uma espécie de arte sublime no seu melhor. Isso não é modéstia. Ele está apenas a dizer que é uma forma de arte inferior. Normalmente, isso é verdade. É escrita muito mais rapidamente e muito mais economicamente. Mas acho que a sua música desafia isso. Ele aperfeiçoou a arte da banda sonora para cinema. Ele levou-a ao seu auge. Ele elevou a música de cinema a uma forma de alta cultura".

Ao biógrafo, Williams contou: "Se tivesse de fazer tudo de novo, teria feito um trabalho mais limpo – com a música de cinema e a música de concerto a serem mais como eu, seja lá o que isso for, ou mais unificadas de alguma forma. Mas nada disso aconteceu dessa forma. A coisa do cinema era um trabalho a ser feito, ou uma oportunidade a aceitar".

O nome do compositor também é indissociável da carreira de Steven Spielberg, a quem se mantém fiel mesmo depois de diminuir o ritmo de trabalho este século: começando por "Tubarão", apenas não trabalharam juntos em "A Cor Púrpura" (1985), que teve música de Quincy Jones; "A Ponte dos Espiões" (2015), onde Thomas Newman assumiu o seu lugar por causa de um ligeiro problema de saúde; e uma nova versão de "West Side Story" (2021), que manteve a música de Leonard Bernstein e para onde sugeriu pessoalmente ao realizador David Newman para tratar dos arranjos e Gustavo Dudamel para conduzir a orquestra.

E aqui, Williams não deprecia, descrevendo uma "colaboração muito especial" de 50 anos, destacando que o cineasta "tem mais... formação musical do que a maioria dos realizadores com quem trabalhei. Cresceu com a mãe, que tocava... Clementi, Bach, Chopin e por aí fora. E ela levava-o a concertos... Ele tocava um pouco de clarinete. E ele é muito musical".