Porque é que o cinema de terror em Portugal é tão escasso?

Essa é uma das questões centrais do livro “O Quarto Perdido do Motelx – Os Filmes de Terror Português (1911-2006)”, lançado no cinema São Jorge no passado sábado, véspera do fim da 16.ª edição do Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa.

O SAPO Mag conversou com os diretores, João Monteiro e Pedro Souto, a propósito do trabalho de arquivo desenvolvido pelo festival, do desconhecimento da história do cinema português e da prevalência do Cinema Novo, que só circulou dentro de uma elite nos livros de História.

Coordenado por João Monteiro e Filipa Rosário, o livro reúne textos de diversos autores – que se debruçam sobre todos os títulos que têm sido garimpados pelo trabalho de pesquisa do MOTELX.

A obra vem a reboque de uma das mais antigas secções do festival – que iniciou atividades a partir de um cineclube, em 2007, e que em 2009 incorporava a secção Quarto Perdido. A partir de uma sugestão de António de Macedo, cineasta falecido em 2017 e que foi, ele próprio, um dos artistas a tropeçar aqui e ali no género, estabeleceu-se uma parceria com a Cinemateca que tem garantido, ao longo dos anos, uma repescagem de trabalhos esquecidos que compõem a própria história do cinema português.

A primeira parte do livro, “Entre géneros e subgéneros”, aborda, entre longas e curtas, 16 filmes distribuídos em oito secções - que vão desde os “slashers” até o musical, caso do famoso “Os Canibais”, de Manoel de Oliveira.

Num segundo momento, “Outras Formulações”, um dos destaques é a desconhecida história da “luso exploitation” portuguesa, que apesar da existência efémera dialogava com o que se fazia na Europa nos anos 1970.

A escassez do cinema de terror em Portugal

Todos os povos têm histórias de terror, presentes, quanto mais não seja, nas suas lendas e folclores. Em Portugal, os românticos do século XIX ainda aproveitaram qualquer coisa deste material mas, de um modo geral, a literatura fantástica portuguesa é muito restrita.

“Uma das explicações que se têm dado vincula essa escassez literária à Inquisição”, diz João Monteiro.

Não é difícil imaginar que essas narrativas não agradavam à ortodoxia – criando um pano de fundo que, certamente, não melhorou com o Estado Novo. Essa é uma das razões que o livro aponta para o facto de o cinema de terror nunca criar raízes em Portugal.

A história do cinema português contada por uma elite

Outra lacuna que o trabalho de pesquisa de filmes que veio resultar no livro, uma espécie de “ponto de situação” da secção Quarto Perdido, é o desconhecimento do cinema português que não está presente, por um lado, nas comédias no estilo de Vasco Santana e, na vertente oposta, nos cânones do Cinema Novo.

“Sem dúvida há um desconhecimento”, diz Pedro Souto, relatando que eles próprios descobriram, primeiro a partir de listas de José Matos Cruz e depois de trabalho árduo na Cinemateca, muitos filmes que nem desconfiavam que existiam.

“As comédias dos anos 1940, 1950, sobreviveram porque são obras mais fáceis e bem promovidas pelo próprio Estado Novo. O restante é um cinema que não está em lado nenhum, só são programados e recuperados quando existe uma demanda exterior”, destaca.

João Monteiro reforça a ideia, observando que há períodos do cinema português que não são estudados: “Às vezes, ouço dizer que nos anos 1950 ‘não tem nada’. Na verdade, a produção desta década diz mais da sociedade portuguesa do que, por exemplo, a de 1960. A Nouvelle Vague francesa (Nova Vaga) nunca teve impacto de público em Portugal, até porque as pessoas não estavam habituadas a estes filmes e só tiveram importância dentro de uma elite cultural. E, no entanto, é só isso que consta nos livros. A minha esperança é contribuir para que se descubram outros filmes”.

Essa realidade pode estar a mudar com o projeto de digitalização, previsto no Orçamento, de todo o cinema português.

Os filmes favoritos

E quais são os filmes favoritos dos diretores e programadores do festival com relação às obras contidas em “O Quarto Perdido do Motelx – Os Filmes de Terror Português (1911-2006)”?

João Monteiro aponta, por exemplo, para “Os Crimes de Diogo Alves”, o segundo filme feito em Portugal, em 1911.

Neste caso, os assassinatos do famoso “serial killer” lusitano do século XIX aparecem quase em forma de comédia: “Dá uma ideia do que era o entretenimento em 1911”, brinca.

Ele e Pedro Souto concordam em apontar “Os Crimes da Aldeia Velha”, produção de António Cunha Telles dos anos 1960, como um dos mais interessantes.

O filme mostra a brutal execução de uma mulher, por “bruxaria”, numa aldeia portuguesa do início do século – trazendo temas bastante ousados para dar uma ideia bem sinistra da ignorância reinante na zona rural.

“A primeira cena é incrível”, diz Monteiro, “assim como a longa luta de machados”, conclui.

Souto reforça ainda o apreço por certos filmes consoante a trajetória acidentada que os levou a conhecê-los – todas obras já exibidas no MOTELX, como “A Caçada do Malhadeiro”, “O Construtor de Anjos” e “A Dança dos Paroxismos”, trabalho alternativo de grande interesse que foi exibido acompanhado de música de Legendary Tigerman e Rita Redshoes.

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