A atriz francesa Adèle Haenel, de "Retrato da Rapariga em Chamas", anunciou o seu abandona da carreira no cinema.

Em causa está a forma como as mulheres e minorias são tratadas por uma indústria cinematográfica que descreve como "absolutamente reacionária, racista e patriarcal".

"Não faço mais filmes. Por razões políticas. Porque a indústria cinematográfica é absolutamente reacionária, racista e patriarcal. Estamos enganados se dizemos que os poderosos têm boa vontade, que o mundo está a caminhar na direção correta sob sua boa e, às vezes, inábil gestão. Claro que não. A única coisa que move a sociedade estruturalmente é a luta social. E parece-me que, no meu caso, sair significa lutar. Ao deixar definitivamente esta indústria, quero participar de outro mundo, de outro cinema", revelou a atriz de 33 anos em entrevista à revista alemã FAQ.

A experiência parece ter sido a gota de água para Adèle Haenel foi "The Empire”, um projeto de ficção científica do cineasta de culto Bruno Dumont, que anunciou ter abandonado por desentendimentos sobre o tema e elenco.

"No início, pensei que parecia bastante divertido: uma espécie de Luke Skywalker no espaço. O problema é que por trás dessa fachada engraçada, havia um mundo sombrio, sexista e racista que era defendido. O argumento estava cheio de piadas sobre cultura do cancelamento e violência sexual. Tentei discutir isto com Dumont, porque achei que um diálogo era possível. Queria acreditar pela enésima vez que não foi intencional. Mas é intencional. Este desprezo é deliberado. Assim como gozam com as vítimas, com as pessoas em situação de fragilidade. A intenção era fazer um filme de ficção científica com um elenco todo branco – e, portanto, uma narrativa racista. Não queria apoiar isso", explicou.

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Bastante conhecida graças a filmes como "Apollonide - Memórias de Um Bordel", "Os Combatentes", "O Homem Demasiado Amado", "La fille inconnue" e "120 Batimentos Por Minuto", a atriz, que não faz nenhum filme desde "Retrato da Rapariga em Chamas", lançado em 2019, já teve outras manifestações de frustração com a indústria de cinema francesa: em fevereiro de 2020, abandonou a cerimónia dos prémios César visivelmente transtornada após Roman Polanski ser anunciado como o vencedor de Melhor Realização pelo filme "J’accuse - O Oficial e o Espião".

Antes disso, tornara-se em novembro de 2019 a primeira atriz francesa de renome a denunciar ter sido vítima de abuso sexual na adolescência por parte do realizador Christophe Ruggia, quebrando um silêncio e tolerância em relação ao tema.

A atriz revela que se irá dedicar ao teatro, sem excluir voltar a fazer um dia filmes independentes com cineastas que conhece bem para confiar nas suas intenções, como Céline Sciamma (de "Retrato...") e Gisèle Vienne.

"Se ficasse hoje nesta indústria cinematográfica, seria uma espécie de garantia feminista para esta indústria masculina e patriarcal. O meu sonho é deixar claro: esta indústria defende um mundo capitalista, patriarcal, racista, sexista de desigualdade estrutural. Isto significa que esta indústria trabalha de mãos dadas com a ordem económica global, na qual todas as vidas não são iguais”, concluiu.

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