Ontem foi sexta-feira. Não em Albufeira. Sexta-feira no Crato. E mesmo que não fosse tal a bebedeira, continuar-se-ia sem saber onde é o mar. Porque o único mar que tem passado por aqui, é um mar de boa gente. Até agora, os números da organização apontam para mais de 42 mil, em apenas três dias. Os GNR também fizeram parte desse mar. Eles e todos os seus convidados.

Recuso-me a chamar torpe à Pronúncia do Norte. Rui Reininho mostrou estar no mesmo barco: «Alentejanos e tripeiros é tudo a mesma luta, nisso estamos todos de acordo (a banda). Eu cresci a ouvir um compadre alentejano (...), gosto muito da pronúncia alentejana, é muito bonita». Os GNR estão bem informados quanto ao plano de caça-ao-bêbado que a GNR tem implementado nas madrugadas do Crato. A banda nortenha admitiu que, se fosse a GNR de serviço e tivesse de decretar as regras de bom funcionamento do festival, «era engraçado ir ao balão antes de subir ao palco».

«Já foi no século passado» a última vez que o Grupo Novo Rock esteve no Crato. Por isso mesmo, já se vai tornando difícil recordar certas coisas. Rui Reininho fez a sua confissão: «Eu, por acaso, só tenho memória das más memórias, em termos de espetáculos. Praticamente são os sítios em que a coisa não correu assim muito bem». Concordaram que seria desajustado cantar "quero que você me aqueça nesse inverno", uma vez que o termómetro veranil não tem sido benevolente por estes lados.

«Boa noite, Crato. Bem-vindos ao nosso coração», disse o vocalista antes de entoar "Popless". Sempre hospitaleiro, apesar de estar numa casa que não era a sua, esforçou-se por arrancar uns sorrisos de um público que, durante um bom tempo, esteve algo reticente. A interação, tanto com a multidão como com os convidados que levou ao palco, foi sempre carimbada com cavalheirismo e fidalguia. O mesmo não se podia pedir das palavras, sempre num registo despreocupado, dominado pela gíria inata, mas cândida.

Stereossauro, que já foi campeão mundial de scratch ao lado de DJ Ride, foi o primeiro hóspede dos GNR a atuar. Mais tarde, chegou Mitó, vocalista d'A Naifa, com um timbre verde, amarelo e vermelho, a engalfinhar por completo a circunspeção da plateia. Depois, as asas foram para dançar eruditamente com Rui Reininho. O vocalista prostrou-se perante a excelência de Mitó: «Portugal tem boa música, não precisamos de dar assim tanta massa ao Justin Bieber, à Rihanna e a outros azeiteiros».

A versatilidade de "Rei Reininho", como se podia ler num cartaz junto das grades, culminou nas suas tentativas, com sucesso, para introduzir alguns temas em francês ou italiano. As métricas complexas da sonoridade de GNR foram sempre bem colmatadas pelo violino moscovita, igualmente sagaz, que foi alvo de muitas das palmas batidas. Márcia também as recebeu, meritoriamente. É impossível não lhe elogiar a simplicidade propositada e a meiguice encantadora. A guitarra bem manuseada, como se fosse parte de si, a delicadeza da entoação lusa, como estandarte de uma carreira.

Camané, mais do que cantar, inventou o verbo amar. Um verbo que até encaixou bem naquela noite, sob o signo da partilha de afeto. "Efetivamente", não foi um concerto épico nem arrebatador, mas foi um concerto bonito, muito bonito. No fundo, era isso que se pedia. Talvez, por isso, Rui Reininho se tenha encasulado sempre, depois de uma ou outra intervenção mais atrevida. Talvez o momento mais ruidoso tenha sido no encore, com "Mais vale nunca" e, claro, "Dunas". Despediu-se com um "Namastê". A nós, garantiram-nos que «a vontade é de continuar a inovar. Nem sempre se consegue, mas vai-se tentando».

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