A norte-americana Jeanine Cummins, autora de "American Dirt", tem sido acusada por escritores hispânicos de explorar a tragédia dos migrantes mexicanos e de validar estereótipos, como os citados pelo presidente Donald Trump para justificar a sua política anti-imigratória.

O romance conta a história de uma mexicana, dona de uma livraria, que foge para os Estados Unidos com o seu filho pequeno a bordo da "Besta" ("La Bestia"), o comboio de carga utilizado por migrantes, após sobreviver ao assassinato de quase toda a sua família numa festa pelas mãos de narcotraficantes.

A publicação do livro gerou uma intensa polémica sobre a apropriação cultural, a marginalização dos escritores hispânicos por parte da indústria editorial norte-americana, os riscos de espalhar ideias falsas quando não se conhece bem o tema sobre o qual se escreve e os limites responsáveis da ficção.

A tempestade surpreendeu a Flatiron Books, que na noite de quarta-feira suspendeu a digressão de Cummins para promover o livro.

"Baseados em ameaças específicas a livreiros e à autora, acreditamos que existe um risco real para a sua segurança", disse Bob Miller, presidente da editora, em comunicado.

"Explorador"

O escritor Stephen King apresentou o livro como "maravilhoso". Don Winslow afirmou que "é o 'As Vinhas da Ira' dos nossos tempos", em alusão ao consagrado livro do escritor John Steinbeck, com o qual ganhou o prémio Pulitzer de melhor ficção em 1940.

Uma adaptação para o cinema do livro de Cummins já está em andamento.

Mais de 120 escritores, no entanto, incluindo a romancista mexicana Valeria Luiselli e a escritora hispânica Myriam Gurba, que iniciou o debate, assinaram uma carta aberta enviada a Oprah para que reconsiderasse a sua decisão de o recomendar para o seu clube do livro, uma seleção que garante êxito nas vendas.

"Esta não é uma carta que pede para silenciar ou censurar", dizem, mas desejam que não se promova um livro que dizem que "é explorador, simplifica demais e está mal informado; cai com muita frequência no fetichismo do trauma e no sensacionalismo da migração e da vida e cultura mexicanas".

A atriz mexicana Salma Hayek chegou a publicar uma selfie com o livro sem saber da polémica, mas depois pediu desculpa.

As fotos partilhadas pela própria Cummins de um jantar com lagosta para o lançamento do livro que mostra arranjos florais decorados com arame farpado, em alusão à capa do livro, também não ajudaram.

"Border chic", criticou Myriam Gurba no Twitter. Segundo os escritores que assinaram a carta, as imagens são "cruéis" e "insensíveis".

"Ignorância e negligência"

"Este é um livro que simplifica o México, que utiliza mal o espanhol, é um livro onde a protagonista, que é mexicana, não faz coisas que fazem sentido para um mexicano", disse à AFP Ignacio Sánchez Prado, mexicanista e professor de estudos latino-americanos da Washington University em St. Louis, Missouri.

O académico diz não acreditar que só os mexicanos possam escrever bem sobre o México. Mas Cummins  "fez isso mal" e a principal responsabilidade é do "aparato editorial", avaliou Sánchez Pardo, que criticou "a ignorância e a negligência" da Flatiron na edição do livro.

A autora, que se define como branca e 'latinx' [a sua avó é porto-riquenha], não comentou a polémica nas redes sociais, mas advertiu no The New York Times que "existe um perigo às vezes de ir longe demais no silenciamento das pessoas".

"Ninguém tenta censurar Cummins. Pode continuar a produzir o que quiser", disse à AFP o escritor Daniel Olivas, autor de um livro de poemas sobre a fronteira, "Crossing the border: collected poems" e um dos signatários da carta enviada a Oprah.

"Mas a promoção deste livro como 'o grande romance americano' e 'um feito deslumbrante', da proporção de John Steinbeck, é simplesmente mortificante quando muitos escritores latinxs recebem uma mera fração desta atenção e compensação monetária", afirmou, em alusão ao autor contemplado com o Nobel de Literatura (1962).

A Flatiron, que obteve os direitos do livro após uma disputa aguerrida e um cheque de sete dígitos para Cummins, não respondeu aos pedidos da AFP para comentar a controvérsia e entrevistar a autora.

O presidente da editora confessou-se "orgulhoso" de ter publicado o livro, mas admitiu que nunca deveria ter sido apresentado como um romance "que define a experiência do imigrante". Lamentou que "uma obra de ficção bem intencionada tenha gerado um rancor tão virulento".

"'Rancor virulento'. Que forma de nos humanizar, de compreender o nosso problema", ironizou no Twitter outro signatário da carta, o escritor hispânico David Bowles, que descreveu o romance como "um melodrama de porno-trauma".

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