
“Voz e Violão” era a epígrafe da digressão de Marcelo Camelo, que chegou ao fim com um único concerto em Portugal, no Teatro Tivoli. Mas voz e violão foram, igualmente, as armas que o artista utilizou para «sequestrar» as centenas de pessoas que assistiram ao seu concerto e que ficaram rendidas à sua música desde o primeiro minuto. Minuto esse que se iniciou com “Luzes da Cidade” e que demonstrou um Marcelo seguro – apesar de o próprio admitir algum nervosismo no início do concerto – e decidido a envolver-nos nos seus turbilhões de amores e desamores.
Sentado de viola ao colo e iluminado por focos simples e aconchegantes, o músico cantou em torno uma labareda, que numas vezes nos aqueceu os corações e noutras nos mergulhou corpo e alma no mar gelado da sua melancolia. Os aplausos somaram-se e multiplicaram-se à medida que canções como “Pra Te Acalmar”, “Samba a Dois” e “Casa Pré-Fabricada” desfilaram por entre os ouvidos dos presentes. Mas seriam os temas “Pois é” e “Doce Solidão” o primeiros a desencadear reações eufóricas na plateia. A voz aveludada de Marcelo acabava, então, de conquistar um público, já à partida rendido à sua magnificência. Por entre as alíneas de alguns versos e alguns refrões, lá se ouviam uns coros a acompanhar o artista brasileiro, que chegou a pedir, a dada altura, que o público não parasse de trautear a melodia de “A Outra”, servindo de sustento às centenas de vozes afinadas.
Thomas Rohrer, músico que acompanha Marcelo Camelo na digressão “Voz e Violão”, subiu ao palco com a sua rabeca e coma finalidade de preencher as músicas com melodias gélidas, pintadas de cinzento escuro. Tais cordas glaciais que foram arranhadas em “Janta”, “Dois Barcos”, “Fez-se Mar”, “Tudo o Que Você Quiser” e “Menina Bordada”, enriqueceram as canções do artista e acrescentaram aos seus versos uma densa melancolia. Missão cumprida por parte de Rohrer que, antes de abandonar o palco, viu a “Menina Bordada” ser a responsável por mais uma explosão de afeto por parte do público que acompanhou Marcelo nos seus trilhos vocais. E tal afeto é recíproco. O músico demonstrou, várias vezes ao longo do concerto, o seu apegopelo povo português, mas especialmentepor alguns amigos que guarda em terras lusas, nomeadamente Fred Ferreira, dos Orelha Negra.
Depois de uma quadra composta pelos temas “A Outra”, “Santa Chuva”, “Liberdade” e “Cara Valente”, o concerto chegou ao fim e Marcelo abandonou o palco sob uma tempestade de aplausos que exigiu o seu retorno.
De volta ao palco, o músico ingressou pelo tema “Saudade”, a canção que curiosamente inspirou a criação de “A Cura”, dos Orelha Negra, interrompendo-a a meio para dedicar a noite aos amigos que o acolheram em Portugal. A reta final, que trouxe às costas uma boa dose de emoção, iniciou-se com “Morena”, seguindo-se o tema “Tá Bom”, que marcou o regresso de Thomas Rohrer ao palco.
De seguida, a belíssima “Luzes da Cidade” fez, pela segunda vez na noite, as delícias dos presentes que ansiavam por mais canções do artista brasileiro. Infelizmente, e para desagrado de muitos que teriam ficado noite dentro a ouvir o artista a revisitar toda a sua carreira, o concerto acabaria por chegar ao fim com os temas “Vermelho” e “Além Do Que Se Vê”. Foi ao som desta última que Marcelo Camelo abandonou o palco, deixando centenas de pessoas desamparadas, enquanto a melodia da rabeca de Rohrer de dissipava pela audiência e pelas paredes do Teatro Tivoli. A ovação não tardou e o artista regressou ao palco para receber o devido reconhecimento por uma atuação exímia, que não deixou nada, mas mesmo nada, a desejar.
Texto: Manuel Rodrigues
Fotografia: Marta Ribeiro
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