Existem bandas que atribuem todo o sentido à palavra harmonia, quer seja pela forma como conjugam a componente melódica e rítmica das suas músicas, pela forma como casam as diferentes influências que carregam na sua identidade, ou mesmo pela forma como pegam em tudo isto e o executam ao vivo. Se há banda em que harmonia é a palavra chave, essa banda dá-se pelo nome de Julie & The Carjackers. O grupo esteve presente, na passada sexta-feira, no Centro Cultural de Belém, ondecomprovou de forma exímiaeste primeiro parágrafo.

Apenas um EP e um disco de longa duração fazem parte da bagagem deste coletivo que não se priva de explorar sonoridades no campo do folk, como ficou claro em “One Thousand Stray Dogs”, e da bossa nova, como em “Mr. Williams”. Toda esta variedade enriquece a prestação ao vivo dos Julie & The Carjackers, que tão depressa nos fazem balançar o corpo (ainda que limitados às cadeiras do auditório onde decorreu o espetáculo) ao ritmo tropical brasileiro, como rapidamente nos deixam a bater o pé, como resposta à cadência tradicional norte-americana.

A casa não encheu totalmente, mas os presentes não se abstiveram de multiplicar aplausos ao longo do desfile de músicas que o sexteto proporcionou. “Este é um concerto familiar”, afirmou João Correia ao microfone no final do tema “The Chain On My Swing”, sublinhando o facto de terem assistido à entrada do público a partir dos camarins, através de uma câmera instalada para o efeito, ressalvando assim a presença maioritária de familiares e amigos na plateia. “Parece que a malta foi jantar lá a casa”, acrescentou ainda.

A fórmula que a banda apresenta resulta numa perfeita reação de simbiose. É impossível conjeturar a existência dos Julie & The Carjackers sem os coros ternos que acompanham constantemente os trilhos vocais de João, sem os ligeiros apontamentos na percussão por parte de Inês, que completam o fantástico desempenho de António Dias na bateria e, claro, os solos de guitarra supercompetentes de Bruno Pernadas, que ainda desempenhou um papel importantíssimo nas teclas, ao som de “Haystack”, remetendo para sonoridades muito ligadas aos The Doors, ou até mesmo Donovan.

Estavam prometidos alguns temas inéditos para a noite de sexta-feira. Tal promessa foi cumprida e “Sally”,que, apesar de não poder ser encontrada em nenum dos álbuns do grupo, já fora anteriormente interpretada ao vivo,foi, então, a primeira novidade do concerto. Seguiu-se “London Dreams”,uma estreia absoluta para os nossos ouvidos, quepoderá, hipoteticamente, fazer parte do próximo álbum da banda.

Destaque ainda para “Wait By The Telephone”, que fez as delícias daqueles que ansiavam por temas mais fortes com uma componente rock mais acentuada, e “Nightstand”, que se iniciou na voz de Inês e acabou num solo frenético, por parte de Bruno, deixando a plateia rendida num derrame de aplausos. A atuação do coletivo lisboeta encerrou ao som de “Taxman” (Beatles), tema do álbum “Revolver” (1966).

A noite ficou, assim, marcada pelo excelente desempenho do coletivo, que não deixando de relembrar o álbum "Parasol", também deu tempo de antena ao EP homónimo, oferecendo de bandeja também alguns temas novos. Tudoisto acompanhado pelas palavras que um bebé da plateiateimou em balbuciar durante todo o espetáculo e que João Correia, em jeito de brincadeira, tentou reproduzir, através da sua guitarra, ofertando um carácter mais informal e familiar ao concerto.

Manuel Rodrigues