
São poucos os casos em que o conceito de companheirismo, partilha e entreajuda é elevado para um patamar que se possa considerar familiar, principalmente quando tal é respeitante a editoras multinacionais, predadoras de lucros rápidos e exploradoras da vida e do legado dos artistas. Quando analisamos os pequenos nichos que são as editoras pequenas como a Azáfama, depreendemos que mantêm uma ligação muito íntima com os artistas e vice-versa, onde os laços se formam à margem do poder e dos cifrões. Assim sendo, o clã Azáfama reuniu-se no sábado passado numa festa que celebrou este sentimento de união, numa noite plena de música, no Teatro do Bairro, em Lisboa.
A noite, que prometia colaborações, participações especiais e ainda algumas surpresas, foi inaugurada na voz de JP Mendes, ou, por outras palavras, Capitão Capitão. A acompanhá-lo estiveram João Gil (Vitorino Voador) nas teclas, que se manteve praticamente titular nas colaborações da noite, O Martim no baixo, e Bernardo Oliveira na bateria. “Boa Noite, vai começar a festa da Azáfama”, foram as palavras proferidas por JP Mendes, que serviram de apelo aos presentes para se aproximarem do palco, enquanto abria o concerto com o tema instrumental “Malarranha”. Seguiu-se “Memórias Curtas”, evidenciando as primeiras distorções duma noite que transportaria ao dorso uma acentuada característica rock.
“Santo Amaro” fechou as portas a esta primeira intervenção de Capitão Capitão e estendeu a passadeira vermelha a Vitorino Voador, acompanhado de Lourenço Cordeiro (Trêsporcento) na guitarra elétrica, O Martim no baixo, David Pires (F l u m e) na bateria e, segundo palavras do artista, o “Coro de Santo Amaro de Oeiras”, que juntava Joana Barra Vaz (F l u m e), JP Mendes e elementos dos Trêsporcento no acompanhamento vocal. O concerto teve início com “Balada FDP”, uma canção dedicada a todos aqueles cujas viaturas foram vítimas de furto no bairro da Bica. De seguida, ouviu-se “O Caminho”, uma canção que contou com uma faceta electrónica a cargo de Tupã Cunum, nome artístico do produtor José de Castro. “Sede de Água” encerrou o concerto de Vitorino Voador, numa altura em que se fazia a ponte entre o lado cru do rock de Capitão Capitão e a atuação do próprio Tupã Cunum, que envolveria traços do industrial com muito experimentalismo.
Foi num passeio pelas florestas do psicadelismo que o concerto de Tupã Cunum teve arranque, com o primeiro tema a contar com a participação de David Pires na bateria, David Santos (F l u m e) no contrabaixo, Rita Oliveira (F l u m e ) no oboé, Joana Barra Vaz nos efeitos vocais e João Gil no trompete. Uma autêntica viagem pelo mundo electrónico que desembocou na “Mata Atlântica”, canção que finalizou o concerto de Tupã Cunum e que, aproveitando os elementos que já se encontravam em palco, abriu as portas a F l u m e.
O projeto de Joana Barra Vaz iniciou o concerto com agradecimentos a Pedro Valente, mentor da Azáfama, e com uma versão de “É Tudo Tão Fácil”, tema dos Trêsporcento do álbum “Hora Extraordinária”. A esta altura do certame já se evidenciava bem o sentimento de partilha dos elementos das bandas que integram a editora, com os próprios a revezarem-se na altura de participar nos coros dos companheiros. Dos F l u m e pudemos ouvir ainda “Todo o Tempo”, “Vento” e “A Catraia”. Uma ótima escolha para esta fase do concerto que pedia algo mais calmo e melódico, servindo de embalo para uma reta carregada de rock.
Depois de já ter tocado baixo nas bandas que o precederam, O Martim deu a cara pelo seu projeto, desta vez de guitarra empunhada e empenhado em colocar os presentes a dançar ao som das suas canções orelhudas e cheias de groove. Acompanhado por João Pinheiro na bateria, Salvador Carvalho (Trêsporcento) no baixo e João Gil nas teclas, o músico inaugurou o seu espetáculo com “Eu Também Não Sou Poeta” e ingressou por sonoridades popeanas à medida que o público se deixava contagiar com músicas como “Toda a Gente” e “Domingo de Manhã”.
Era chegada a altura do concerto dos Trêsporcento, a única banda que restava atuar, apesar dos seus elementos já terem colaborado com os parceiros de editora. Do repertório pudemos ouvir “Cascatas” e “Quero Que Sejas Minha” e ainda uma versão para o tema “Grande Mentiroso” de Capitão Capitão. Depois desta trilogia dos Trêsporcento, JP Mendes regressou a cena e interpretou “Folhas”, em homenagem a Pedro Valente, que acabou por ser chamado ao palco, bem como todo o elenco que participou na realização e promoção do evento.
A festa continuou com os Trêsporcento e “Veludo”, um dos temas radiofónicos que mediatizou a banda perante as massas de ouvintes e que colocou, inevitavelmente, todo o Teatro do Bairro ao rubro, seguindo-se Vitorino Voador com o tema instrumental acústico “Os Velhinhos”. Chegada a reta final, e para acabar o concerto tal e qual como ele começou – ligado à corrente -, O Martim cantou “Banho Maria”, a canção que serviu de rampa de lançamento da sala de ensaios do artista para os nossos ouvidos. A festa fez-se na plateia e no palco, onde só faltaram os confetis, o champanhe e as flores para a celebração. Findas as performances ao vivo, a noite continuou com um set de DJ a cargo de Pedro Valente e o Homem Temporariamente Só (Diego Armés). Um bom exemplo do espírito familiar em que até o próprio “patrão” dá o corpo ao manifesto pelo sonho em que acredita: a Azáfama.
Manuel Rodrigues
Comentários