A HISTÓRIA: A verdadeira história de Leroy Logan, um jovem cientista forense que deseja fazer mais para além do seu trabalho de laboratório solitário. Quando vê o pai a ser agredido por dois polícias, relembra a sua ambição de infância de se tornar polícia - algo criado pela esperança ingénua de querer mudar atitudes racistas. Primeiro, Leroy tem que enfrentar as consequências da desaprovação do pai, assim como o racismo flagrante que encontra no seu novo papel de polícia desprezado, mesmo sendo um exemplo na Força Policial Metropolitana.

"Small Axe - Red, White and Blue": disponível na HBO desde 30 de novembro. Cada episódio é um telefilme. O quarto, "Alex Wheatle", está disponível desde 7 de dezembro e a crítica será publicada a 14 de dezembro.


Crítica: Hugo Gomes

“When I was your age they would say we can become cops, or criminals. Today, what I'm saying to you is this: when you're facing a loaded gun, what's the difference?” [“Quando era da vossa idade diziam-me que podíamos ser polícias ou criminosos. Hoje, o que vos digo é o seguinte: quando se está à frente de uma arma carregada, qual é a diferença?”]

Esta é, possivelmente, a citação mais célebre de Jack Nicholson em “The Departed: Entre Inimigos” (2006), o filme que daria a Martin Scorsese o seu tão esperado Óscar de Melhor Realização. E a intenção ao evocá-la como ponto de partida é para colocá-la lado-a-lado com o conselho dado ao pequeno Leroy pelo seu pai neste terceiro capítulo da minissérie "Small Axe".

Após o “rapazinho” ter sido abordado por dois polícias com a desculpa de “têm acontecido muitos assaltos por jovens negros nos últimos dias”, o progenitor adverte que, sob a sua alçada, este nunca deveria ser nem “delinquente nem trazer polícias” à sua morada. Aqui sob a justificação de que por causa da discriminação nas forças policiais, ambos os lados da lei são prejudicialmente idênticos para os negros britânicos que prosseguem nas suas vidas. Ou seja, a mesma resposta à pergunta "qual é a diferença?".

Em "Red, White and Blue", Leroy cresce e, sob a pele do ator John Boyega, encontra-se determinado em delinear "diferenças" entre marginalidade e autoridade. Por outras palavras, candidata-se à Academia e torna-se polícia. E se o percurso é ditado pelas forças que jurou lutar, ele apercebe-se da sua impotência, de que é vítima de um sistema social corrompido pelo preconceito, discriminação e "privilégio branco".

Após os dois primeiros tomos, o ativista “Mangrove” e o tecnicamente sublime e subliminar “Lovers Rock”, chegamos ao filme mais insatisfeito na sua própria condução. "Red, White and Blue" apresenta pouco da irrequieta e cúmplice câmara do realizador Steve McQueen, mas o desejo aqui é outro, o de esquematizar as adversidades e representar o cansaço de um confronto desigual  com vícios sistemáticos e entranhados. E opta por fazê-lo através de retalhos narrativos, longe da ternura e a alguns passos da austeridade estética e temática.

Na improbabilidade deste gesto e entre o pesar de esforços em vão e duelos incertos e negados, chegamos a uma reunião na solitude entre pai e filho, que voltam a trocar conselhos e partilham amarguras sobre o mundo que os rodeia.

No fim de contas, a viagem de Steve McQueen está fora do eixo propagandista ou da pedagogia do "exemplo social". Aqui, é no carinho entre duas gerações ligadas pelo mesmo sangue que deparamos com a planeada meta de "Red, White and Blue": reencontrar quem reconhece as nossas dores.

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