"Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis" não deverá estrear na China.

Com um ator asiático para interpretar o herói, pela primeira vez, numa produção da Marvel, o filme era uma grande aposta do estúdio e da sua proprietária Disney para entrar no mercado chinês, que ultrapassou o dos EUA para se tornar o maior do mundo durante a pandemia.

Segundo a publicação especializada Deadline Hollywood, o atual contexto de nacionalismo exacerbado na China já deixava em dúvida a estreia do filme, mas o seu destino pode ter ficado selado por causa de declarações antigas precisamente do ator que interpreta o herói.

Numa entrevista ao canal canadiano CBC em 2017 que ressurgiu e teve impacto nas redes sociais chinesas na semana passada, Simu Liu falou dos seus pais lhe terem contado como era viver sob o regime comunista e referiram-se à China como um país de "Terceiro Mundo" onde as pessoas estavam a "morrer de fome".

Anteriormente, "Shang-Chi" já tivera uma receção morna nas redes sociais na China.

"Este filme só vai aprofundar o nosso estereótipo aos olhos do mundo', escreveu um utilizador do Weibo, o Twitter chinês, enquanto outro utilizador descreveu a produção como "uma tentativa pobre de arrancar dinheiro do público chinês".

No popular portal de críticas Duoban - semelhante ao Rotten Tomatoes -, um utilizador lamentou a trama que contempla um chinês americanizado que regressa à sua terra para lutar contra o seu pai de mentalidade tradicional.

O presidente da Marvel, Kevin Feige, tentou minimizar essa crítica numa entrevista com um jornalista chinês, insistindo em que a narrativa é sobre Shang-Chi se reencontrar com suas raízes.

"A sua fuga é apresentada como um dos seus fracassos", disse ele, de acordo com a revista Variety, enquanto o realizador Destin Daniel Cretton afirmou à AFP que os cineastas trabalharam muito para superar "alguns estereótipos claros que foram criados na vida e na sociedade, e que também faziam parte da caricatura original".

"Para mim, o mais importante neste filme foi definir bem as personagens, que o público pudesse identificar-se com elas, que fossem multidimensionais, fosse o herói Shang-Chi, ou o vilão entre aspas", disse Cretton.

Chloé Zhao

Após o impacto da pandemia, os cinemas da China reabriram este ano com a exibição de produções domésticas e patrióticas, com poucos filmes americanos a receberem autorização para estrear. Além de proteger os cineastas chineses, a mudança pode refletir o crescente descontentamento com a Marvel, já que "Viúva Negra" também não tem data de estreia.

O Deadline avança que um ponto de interrogação acompanha o próximo lançamento de super-heróis do estúdio: "Eternals", dirigido por Chloé Zhao, cineasta nascida em Pequim que ganhou vários Óscares, incluindo uma estatueta histórica de Melhor Realização por "Nomadland - Sobreviver na América".

O sucesso inicial de Chloé Zhao, que reside nos Estados Unidos, começou por atrair admiração na China, com os meios de comunicação chineses noticiando a "realizadora chinesa" e descrevendo-a como "uma fonte de orgulho".

Mas a censura chegou numa retaliação nacionalista após ganharem destaque entrevistas de 2013 em que ela parece ter criticado a China, afirmando que era "um lugar onde há mentiras por toda a parte" e que os Estados Unidos eram agora o seu país.

O Deadline nota que o problema atual com Simu Liu faz com que seja provável que a estreia de "Eternals" no início de novembro não seja aprovada, mas permanece "uma questão em aberto" se o governo chinês ou Zhao poderão dar passos para tentar "reabilitar" a situação.

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