Theo Anthony é o autor em foco da oitava edição do Porto/Post/Doc, com seis filmes que traçam a sua “autobiografia, como criador e como pessoa, a crescer e aprender com erros” e pensam o poder da imagem.

São seis filmes: duas longas-metragens, uma ‘curta’ e três muito ‘curtas’. Em todas elas o realizador de 32 anos é “a coisa consistente”.

Além de dar uma aula, na quarta-feira, será exibido, na quinta-feira, o seu mais recente filme, “All Light, Everywhere”, de 2021, “um potente filme-ensaio sobre a videovigilância e a utilização, não isenta, de câmaras de filmar pelas forças policiais nos Estados Unidos da América”.

“Em todos os filmes eu coloco-me no lugar do novato, não entro nos filmes como especialista. Disponho-me a aprender com as pessoas e o mundo, e os meus filmes traçam essa experiência”, conta, em entrevista à agência Lusa.

O “fio consistente” é mais visível nos últimos três filmes, “Rat Film” (2016), “Subject to Review” (2019) e “All Light Everywhere” (2021), considera, já que funcionam “quase como uma trilogia sobre imagens e como o poder passa pelas imagens”.

“Seria hipócrita falar de imagens e não reconhecer que eu próprio estou a fazer imagens sobre imagens. Isso em si é digno de ser dissecado e analisado”, assume.

All Light Everywhere

Para Theo Anthony, “o documentário, historicamente, tem sido visto com uma relação muito próxima com a verdade, a mostrar coisas que realmente aconteceram – parece que o mundo acontece com uma câmara na mão ou numa entrevista” –, mas “no decurso de fazer este argumentário sobre o que é a verdade, em documentário, fazem-se decisões incrivelmente subjetivas e arbitrárias”, como “o que cortar, ou escolher um outro fio”.

“A minha abordagem otimista ao documentário é que podemos usar não-ficção para revelar as ficções que estruturam o nosso mundo. Talvez, se estivermos mais em sintonia com a forma como o documentário é construído, talvez possamos fazer o mesmo com o mundo real. Ver estruturas não como coisas naturais que já existem, mas que o poder vem de algum lado e há bases para desafiar estruturas de poder convencionais”.

E fá-lo servindo-se de “filmes-ensaio”, que, para o cineasta, vem do verbo francês para tentar, “essayer”.

“O que eu acho tão interessante em filmes-ensaio é que a intenção não é deixar um ponto de vista ou uma mensagem. O objetivo é o processo, e o processo é o produto”.

Encontrou essa linguagem, depois de “Chop My Money” (2014), que o realizador vê “mais como um videoclipe extenso do que um documentário”, quando se cruzou com o trabalho de Chris Marker ou Harun Farocki.

“Não sabia que se podia fazer isso com imagens”, confessa, acrescentando que, apesar de ter estudado cinema na faculdade, é, “sobretudo, um autodidata, que sofre de síndrome do impostor”.

“Aquele tipo de visão caleidoscópica de história, videojogos, ‘verité’ e videoclipes, que se vê no ‘Rat Film’, fui eu a aperceber-me que dá para fazer isso e não era o primeiro. Chamam-se filmes-ensaio”, conta.

Rat Film

O realizador diz que se sente “libertado por continuar uma tradição”, mas confessa que não sabe se vai fazer “isto para a vida toda”.

Agora diz que vai “relaxar por algum tempo”: “Não estou a filmar nada com a Marvel”, confessa, entre risos.

“Preciso de gostar de fazer imagens outra vez. Estou tão cansado, tem sido uma jornada tão grande, e estou tão orgulhoso. É tão bom estar aqui, mas estou tão cansado”, reforça.

Neste momento, está “virado para a carpintaria e a trabalhar como aprendiz numa loja de móveis”.

Para além disso, dedica-se à política local, tendo sido eleito como vereador em Hudson, no estado de Nova Iorque, onde mora.

“É outra forma de me envolver em coisas que me interesso”, diz.

O foco que o Porto/Post/Doc lhe dedica arranca hoje, com a exibição do “Rat Film”, “um ensaio de forte pendor documental sobre os problemas raciais e de urbanismo” em Baltimore, às 21:00, no Rivoli.

Na quarta-feira, o realizador dá uma aula, às 16:30, no Auditório Ilídio Pinho da Universidade Católica Portuguesa.

Às 19:30 são mostrados, no Cinema Passos Manuel, “Subject to Review”, “dedicado à utilização do sistema ‘olho de falcão’ nos jogos profissionais de ténis”, “Peace In The Absence Of War”, que “retrata o luto” de Baltimore após a morte do afro-americano Freddie Gray depois de ter sido detido pela polícia, “Dope Body – Repo Man”, sobre o artista Andrew Laumman, e “Chop My Money”, que traça “um retrato de uma infância africana pobre que não tem que ser miserabilista, muito pelo contrário”.

O seu mais recente trabalho, “All Light, Everywhere”, é projetado às 21:00 de quinta-feira, no Rivoli.

O festival de cinema Porto/Post/Doc começou no sábado e, até dia 30 de novembro, traz cerca de 100 filmes a seis salas da cidade do Porto, sob o tema central "Ideias para Adiar o Fim do Mundo".