Os dois responsáveis pela cooperativa Cinema Novo, organizadora do festival internacional de cinema, e Manuela Pacheco Pereira, irmã de Beatriz Pacheco Pereira, começaram hoje a ser julgados por peculato no Tribunal de São João Novo, no Porto, por, alegadamente, se apropriarem indevidamente de 2.810 euros relativos a passes livre-trânsito para as edições do Fantasporto de 2012 e de 2013.

O arguido disse ao coletivo de juízes que “toda a área financeira” do festival passava por ele, contando que, “numa conversa de fim de tarde” com a mulher, acertaram que as transferências dos pagamentos dos “cartões de participante” no Fantasporto passariam a ser feitas para a conta titulada por ambos, para despesas e fundo de maneio do festival.

“Foi uma asneirada. Não há outra forma de dizer isto”, assumiu um dos rostos e criadores do Fantasporto, após a presidente do coletivo de juízes, Otávia Marques, lembrar que uma cooperativa tem obrigações e deveres legais incompatíveis com este tipo de procedimento.

Dorminsky justificou a decisão com o facto de a esposa, outra fundadora do festival e que fazia parte da direção da Cinema Novo, pagar muitas das despesas do Fantasporto com dinheiro próprio, além de o casal, disse, ter feito vários empréstimos à cooperativa.

O gestor cultural afirmou que não se aperceberam de que estavam a cometer algo de ilegal, sublinhando que, após uma inspeção tributária, Beatriz Pacheco Pereira devolveu, através de cheque, cerca de 2.700 euros à cooperativa Cinema Novo.

Beatriz Pacheco Pereira confirmou a versão apresentada pelo marido: “É verdade, houve um erro. Lamento profundamente”, declarou, acrescentando que o dinheiro serviu de fundo de maneio para despesas correntes durante o Fantasporto, nomeadamente, com voluntários do festival.

A arguida assumiu tratar-se “de um disparate”, sublinhando que nunca pensou “que fosse incorreto” depositar na conta bancária particular que tinha com o marido dinheiro da cooperativa Cinema Novo.

“Gerimos a cooperativa como se fosse uma coisa nossa”, explicou.

Beatriz Pacheco Pereira salientou que nunca se apropriou de dinheiro da cooperativa e que, no final do Fantasporto, era feito “o acerto de contas” com a Cinema Novo, reiterando que, durante décadas, pagou despesas relativas ao festival com o seu próprio dinheiro.

Quanto à irmã, a outra arguida no processo, Beatriz Pacheco Pereira frisou que “nada tem a ver” com a situação, sublinhando que esta se limitou a cumprir as instruções.

Manuela Pacheco Pereira era, à data dos factos, elemento da direção da cooperativa, que trabalhava no secretariado, e, segundo a acusação do Ministério Público (MP), também tesoureira, apesar de negar hoje em tribunal ter essa função.

A arguida contou que “toda a gente”, em alusão aos funcionários da cooperativa, sabia que tinha de indicar o NIB que lhe tinha sido transmitido, e que nunca questionou a irmã sobre esse facto, pois a mesma, contou, pagava muitas despesas do Fantasporto.

“Só indicava o NIB às pessoas que pediam”, afirmou Manuela Pacheco Pereira.

Depois dos três arguidos, prestou declarações o contabilista da cooperativa à data dos factos.

Armando Carvalho da Silva contou que só teve conhecimento dos depósitos de dinheiro da cooperativa numa conta particular do casal Dorminsky durante a inspeção tributária.

O antigo contabilista, agora reformado, explicou que a cooperativa Cinema Novo “vivia sobretudo de subsídios”, da bilheteira do Fantasporto e de alguns patrocínios privados.

Questionado pela procuradora do MP, Marta Jantarada, a testemunha referiu que o casal Dorminsky, “se fez algum empréstimo à cooperativa, foi muito pontualmente”, contrariando a versão apresentada minutos antes por Mário Dorminsky e Beatriz Pacheco Pereira.

A próxima sessão ficou marcada para 18 de outubro.

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