“Hoje quando estivermos a ensaiar essa cena, eu não posso não pensar em Itália. Há coisas que não tinham acontecido há três anos. Parece que a peça tem uma dimensão profética que eu não desejava”, afirmou Tiago Rodrigues, numa entrevista promovida pelo Clube de Jornalistas, em parceria com a agência Lusa e a Escola Superior de Comunicação Social, no âmbito dos 50 anos das comemorações do 25 de Abril e dos 40 anos do clube.

O encenador respondia a uma pergunta sobre a forma como o público tem reagido ao final da peça, durante um discurso de extrema-direita de uma personagem fascista (interpretada por Romeu Costa), com vaias, apupos e abandono da sala.

“Aprendemos que isso ia acontecer, quando estreámos em Guimarães”, afirmou, contando que essa situação criou uma crise entre os atores e o encenador, “houve náuseas”, discutiu-se se se mantinha a cena.

Partindo do “princípio de que o público é mais inteligente do que eu, aceito a legitimidade que não querer determinada peça ou estar interessado em determinada proposta”, disse Tiago Rodrigues, considerando que essa opção “não passa por maturidade, mas por ter tanta confiança no teatro, que a convenção desmancha-se”.

Tiago Rodrigues foi escolha

“Somos tão embalados pela peça que, no final, quando o discurso de extrema-direita ocupa o palco inesperadamente durante meia hora, o público coloca em pausa, suspende a sua distância em relação ao teatro”, disse o agora diretor do Festival de Avignon.

O dramaturgo confessou que não sabia se isso era bom ou não, mas está convicto de que “é um grande evento”.

“O público sabe que é um ator a dizer aquelas palavras, mas o discurso é tão insuportável, tão provocatório que o público não pode senão reagir”.

“Em Portugal, têm cantado a ‘Grândola’, em Itália, a ‘Bella Ciao’, em Viena, o público levantou-se. Ver esses públicos reagir é algo que me devolve confiança, mas ao mesmo tempo preocupa-me que o público tão facilmente se revolte contra um ator”, acrescentou.

Tiago Rodrigues começou a entrevista comentando o pedido de um deputado italiano, eleito pelos Irmãos de Itália (partido mais votado nas eleições de domingo, em Itália), para que o espetáculo “Catarina e a beleza de matar fascistas” fosse retirado de cartaz.

“Vemos esta ameaça desenvolver-se de uma forma que põe em causa uma ideia de democracia, de continente europeu, como continente democrático. Lido com isto tentando colocar as questões, com a possibilidade de conseguir colocar a questão da melhor maneira em palco”, explicou.

“Catarina e a beleza de matar fascistas" propõe uma distopia em que a extrema-direita venceu e centra-se numa família que há gerações mata fascistas, até que um dos elementos mais novos da família, Catarina, quebra essa “tradição” opondo-se a ela, com o argumento de que todas as vidas devem ser defendidas e que é preciso dialogar mais, não com os fascistas, mas com as pessoas que votam nos fascistas.

No final, o espetáculo termina com a vitoria do fascismo e com o monólogo de extrema-direita.

“Tem de acabar assim porque é uma tragédia. Tal como se dizia que Sófocles era um ‘bom vivant’, mas depois escreve ‘Antígona’ e Antígona morre no fim. Ali o que acontece é a vitória da extrema-direita pela incapacidade, a impossibilidade de uma democracia, naquele caso uma família que quer defender a democracia pela violência e mesmo assim é incapaz de impedir a vitória de um discurso fascista e antidemocrático”.

A ideia foi mesmo colocar em palco um discurso que muitos dos espetadores abominam, mas como “o teatro ainda é um lugar revolucionário”, as pessoas são expostas a esse discurso quando não esperavam que esse discurso emergisse.

“Ouvir esse discurso no teatro com pensamento crítico de espectador, é fazer raio x daquele discurso”.

Tiago Rodrigues destaca bem a diferença entre fazer certas afirmações enquanto artista ou enquanto político: “Quando digo ‘vão para a vossa terra’ [numa peça de teatro], é enquanto ficção, se digo como deputado, há uma violência que não pode ser encontrada numa obra de arte”.

O Clube de Jornalistas vai assinalar os 50 anos do 25 de Abril com um ciclo de entrevistas coletivas a personalidades da vida pública nacional.

“Clube de Jornalistas" é o nome do programa de entrevistas, que se irão realizar três a quatro vezes por ano, entre abril de 2022 e abril de 2026, assim acompanhando o arco temporal das comemorações oficiais dos 50 anos do 25 de Abril.

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