Javier Cercas falava à Lusa a propósito da sua participação no Festival Literário da Madeira (FLM), que decorre de 13 a 17 de março, no Funchal, sob o tema “Jornalismo e Literatura – Palavra que prende, palavra que liberta".

“Não sou jornalista e fujo das redes sociais como quem foge da peste. Acredito que tenham coisas boas, mas sou incapaz de vê-las. Estou convencido de que hoje em dia o bom jornalismo é mais necessário do que nunca, porque o valor da verdade se afundou e as mentiras têm maior capacidade de difusão do que nunca”, afirmou.

O escritor cita o exemplo da Catalunha, onde vive, e onde as pessoas estão “desde há vários anos literalmente inundados de mentiras”.

“Isto é um desastre contra o qual o bom jornalismo tem obrigação de lutar".

No FLM, Javier Cercas participa no debate sobre o tema “Jornalismo é literatura com pressa”, que encerra o festival, no sábado. Mas, questionado sobre se considera que essa é uma distinção entre os dois géneros, o autor responde negativamente.

“Se o que escrevo na imprensa é jornalismo - o que duvido muito -, não, porque demoro tanto quanto a escrever literatura”.

Para Javier Cercas, é claro que literatura e jornalismo são coisas diferentes, mas admite que possa haver jornalismo que é literatura, “até muito boa”, pois não acredita na existência de géneros maiores ou menores, mas “formas maiores ou menores de usá-los”.

“De resto, o romance é um género omnívoro, que devora tudo, e da mesma forma que, desde o seu nascimento, devorou a história, a poesia, o ensaio e tudo o que estava por perto, está agora a devorar o jornalismo”, considerou.

Por isso, quando é obrigado a eleger o estilo em que mais gosta de escrever, escolhe o romance, porque inclui todos os géneros, mas, na verdade, considera que a maioria dos seus romances “participam de todos os géneros”.

O autor de “Soldados de Salamina” e de “O monarca das sombras”, dois romances centrados na guerra civil espanhola, explica a escolha desse tema, por ser “o princípio do presente”.

“O que eu quero dizer é que, embora a guerra civil tenha ocorrido há oitenta anos, os meus romances sobre o tema não são romances históricos: são romances que lidam com o presente e não com o passado, que mostram que esse passado - como acontece sempre que ainda há memória e testemunhas - ainda não passou, é uma dimensão do presente sem a qual o presente está mutilado”.

Por isso, recorre sistematicamente a esse tema nos seus livros - mesmo quando não centra a história aí - e admite voltar a fazê-lo. Mas escrever outro romance exclusivamente sobre a guerra, está fora dos seus planos.

Sobre as acusações de “branqueamento” de parte da guerra civil, por ter falangistas na família, Javier Cercas admite que há nos seus livros uma tentativa de “entender” o falangismo (a forma peculiar que o fascismo adotou em Espanha), mas não de o “justificar”.

“É verdade que em alguns dos meus livros há uma tentativa de entendê-lo, entender por que fascinou tantas pessoas, não só na minha família, mas em toda a Espanha e no mundo, incluindo, claro, Portugal; Escusado será dizer que entender não é justificar, mas, em certo sentido, exatamente o oposto: é dar-se as ferramentas para não cometer os mesmos erros novamente. Isto é, na minha opinião, o que faz a grande literatura, o grande pensamento. Quem não entende isso não entende nada”.

“Soldados de Salamina” é o seu romance mais conhecido fora de Espanha, mas isto não significa que seja o melhor, porque o sucesso comercial de um livro não tem nada a ver com sua qualidade literária, defende.

Uma coisa, no entanto, é certa: este foi o romance que tornou Javier Cercas um “escritor profissional”.

“Antes dos 'Soldados de Salamina' eu era, digamos, um escritor pós-moderno – que apenas era lido pela mãe -, ao passo que agora sou um escritor pós-pós-moderno, que, felizmente, ganha a vida com o que escreve”.

Enquanto escritor profissional, Javier Cercas assume-se como muito disciplinado e trabalha diariamente num escritório perto de casa, adotando horários e um ritmo muito rígidos.

“Vou lá todas as manhãs, depois de correr por meia hora, e fico até à noite, com uma pausa para comer e dormir a sesta (eu sou o último espanhol a dormir a sesta)”, conta, afirmando que além da corrida matinal e da sesta, só precisa de “chá, café e muita coca-cola”.

Os escritores que o inspiram são “muitos” e alguns foram “fundamentais”, mas Javier Cercas cita apenas um: Jorge Luís Borges, que, na sua opinião, “é o escritor em língua espanhola mais importante desde Cervantes (ou desde Quevedo)”.

Relativamente à sua participação no FLM, o autor manifestou-se ansioso por “conhecer a Madeira, voltar a ver alguns amigos, a encontrar-se com escritores portugueses e, talvez, averiguar, ou intuir, como terão lido o [seu] último livro”, “O monarca das sombras”.

“Este último aspeto é fundamental, porque sem leitores não há literatura. São os leitores que terminam os livros: metade do livro é feita pelo autor; a outra metade, pelo leitor”.