A HISTÓRIA: Todos pensavam que Cassie era uma miúda com potencial... até um misterioso acontecimento ter subitamente arruinado o seu futuro. Nada na vida da Cassie é o que parece ser: ela é perversamente inteligente, tentadoramente astuta, e está a viver uma vida dupla e secreta durante a noite. E agora, um encontro inesperado está prestes a dar a Cassie a oportunidade de corrigir os erros do passado.

"Uma Miúda com Potencial": aguarda a confirmação da data de estreia após a reabertura dos cinemas portugueses. Está nomeado para cinco Óscares: Melhor Filme, Realização (Emerald Fennell), Atriz (Carey Mulligan), Argumento Original e Montagem.


Crítica: Hugo Gomes

Em 2016, Brock Turner, estudante da Universidade de Stanford, foi julgado e sentenciado pelos três crimes de agressão sexual. Mas apesar de ser comprovadamente culpado, o juiz, antes de pronunciar a sentença, descreveu-o como “a promising young man”... um jovem com potencial.

Até aqui percebemos de onde nasceu o título deste "thriller" tragicómico e a sua vontade de trespassar toda uma cultura dominantemente masculina, onde o homem continua a ser ilibado pelas suas transgressões, especialmente na relação com a mulher. Por isso, não é uma conotação negativa afirmar que “Uma Miúda com Potencial” é um fruto do movimento #MeToo e a desconstrução de um dos mais discutíveis subgéneros do cinema: o “rape and revenge” [violação e vingança].

Em 1978, surgia um dos expoentes máximos dessa fórmula - “Mulher Violada”, ou como é mais reconhecido pelo título original, “I Spit in your Grave” (dirigido por Meir Zarchi) –, um filme que causou mal-estar, repúdios e inesperadas defesas.

Do lado do contra, um mais célebres protagonistas, o “popularucho” crítico norte-americano Roger Ebert, lançou-se numa campanha para censurar a obra, que considerava uma afronta. Do outro lado da barricada, a feminista radical Julie Bindel, que após estar em alguns “piquetes” à frente dos cinemas que exibiam o filme, voltou atrás e defendeu-o como “feminista”. Outra defensora foi Carol Glover, que o incluiu no seu trabalho académico “Men, Women and Chainsaw”.

Obviamente que o próprio feminismo se transformou ao longo dos tempos e é mais do que aceitável etiquetar “Uma Miúda com Potencial” como uma produção do nosso tempo, do nosso pensamento (embora nos parece que o termo “miúda” seja aqui desapropriado). Um punho cerrado contra o conformismo que se viu no sub-género da vingança já este século (por exemplo em "Kill Bill", de Tarantino), por oposição à condição da “mulher forte” no cinema (muitos argumentistas utilizaram a violação ou outro trauma como ponte de rutura com a “fraqueza”, o catalizador para as mulheres terem a seguir uma força avassaladora).

Apesar da sua agressividade, “Uma Miúda com Potencial” é uma derivação daquilo que já apareceu no cinema. Não inverte nada; pelo contrário, entra pelos mesmos territórios. No fundo, eis um "thriller" onde uma vibrante Carey Mulligan encarna um “anjo vingador”, servindo ela própria de isco. Essencialmente, ela não se distingue de uma assassina em série, movendo-se pelo vigilantismo por vingança e só numa cena nos é mostrada, por fim, a ter empatia, afastando-a (mas não muito) do quadrante psicopático. Toda esta construção vai contra aquilo que a realizadora Emerald Fennell tem defendido nas entrevistas que tem dado durante a campanha na temporada de prémios que culmina na nos Óscares: o de que as ações da protagonista não têm nada de psicótico.

Colorido, satírico e investido numa camada "pop" (a banda sonora está encarregue de trazer isso à tona com “hits” de Paris Hilton, Brittney Spears e, mais discretamente, Cigarettes After Sex), “Uma Miúda com Potencial” é um aventura que sonha emancipar-se das suas “correntes” mas não consegue e acaba por ser prejudicado por aquilo em que mais poderia apostar: o seu argumento. Como se percebe num desfecho irrisório que coloca em xeque a sua promissora releitura do sub-género. E é o filme que se torna uma vítima do seu "hype".

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