A HISTÓRIA: A história verídica do premiado escritor, Alex Wheatle, desde o início da sua vida adulta. Depois de passar a infância num asilo institucional predominantemente branco, sem amor ou família, ele encontra pela primeira vez um sentido de comunidade em Brixton, assim como a descoberta da sua identidade e paixão pela música, tornando-se DJ. Ao ser preso durante a Revolta de Brixton de 1981, ele confronta o passado e vê um caminho para a cura.

"Small Axe - Alex Wheatle": disponível na HBO desde 7 de dezembro. Cada episódio é um telefilme. O quinto, "Education", está disponível desde 14 de dezembro e a crítica será publicada a 21 de dezembro.


Crítica: Hugo Gomes

Ao quarto capítulo, Steve McQueen vai condensando ainda mais o universo “Small Axe”, o projeto antológico para a HBO que reúne cinco histórias de “pessoas comuns que mostraram coragem, crença e resiliência para superar a injustiça e alcançar algo transformador na sua comunidade.”

Afunilando esses relatos em questões de natureza racial, “Small Axe” vem reforçar os movimentos anti-discriminatórios que têm surgindo com mais destaque nos últimos tempos, tendo à cabeça a onda Black Lives Matter. Estes cinco filmes não nasceram do oportunismo de tais manifestações, mas o seu aparecimento (e acessibilidade) torna-os pertinentes ensaios reflexivos que Steve McQueen usa para disseminar um toque sobretudo humanista e não planfetista.

Em “Alex Wheatle”, a cinebiografia do premiado escritor britâncio de literatura infanto-juvenil é um caminho de imensas curvas e contracurvas para um propósito inicial: abordar o incidente de New Cross, em 18 de janeiro de 1981, um incêndio que vitimou mais de uma dezena de jovens negros.

Em comparação com o anterior “Red, White and Blue” [ler crítica], Steve McQueen regressa à ginástica da câmara hiperativa, que se delicia a integrar a ação e a observar de perto a narrativa como uma personagem/testemunha anónima. Mas este é um guia menos explícito no discurso, ao contrário do que aconteceu no filme com John Boyega, por se apoiar inteiramente em "flashbacks" e em recortes quotidianos, além de nunca existir um verdadeiro conflito ou epifania no protagonista, que se mantém em contacto com a discriminação e a rejeição dos dois lados da moeda (não era considerado “negro” o suficiente para ter com os “seus”).

Mesmo assim, a jornada faz-se com dignidade, humildade (mesmo sendo uma abordagem agressiva) e encoraja o seu próprio ativismo. Só que depois disto, ficamos com a vontade e saudades de bailar pelos salões marginais e improvisados de “Lovers Rock” [ler crítica], até agora o filme mais magistral, sensorial e subtil deste conjunto "Small Axe". Não se faz, Steve McQueen, deixar logo para segundo uma obra dessa categoria com a qual comparamos tudo o que vem a seguir...