Nos anos 90 era este tipo de projetos que vingava nas bilheteiras de todo o mundo, apelando ao público quer pela força do seu “star system” (e Will Smith era a maior parte das vezes um campeão de box-office) quer pela ambição da sua ação, frente às (não) complexidades do guião. Os americanos possuem uma palavra para isto: “cheesy”. Ou seja, um filme que cumpre os mínimos em termos argumentativos, oferecendo espetacularidade no sector exclusivo de Hollywood, aquela que é a sua glamourosa megalomania.

Hoje estes projectos são uma espécie em vias de extinção, ridicularizados pelas novas preferências dos espectadores, possivelmente seduzidos pelas propostas canónicas das suas sagas e outros exemplares de cultura popular, ou pela pretensão produtiva que já se trasladou para os pequenos ecrãs.

Não quer isto dizer que “Projeto Gemini” seja uma produção que fique longe da sua ambição. O ponto central aqui é a tecnologia utilizada ao serviço de um ator mais que presente na indústria. Estes feitos computorizados, que tentam replicar um rejuvenescido duplo digital a contracenar com a sua atual e envelhecida persona, assumem-se como dispositivo narrativo num enredo que joga com a militarização e os dilemas da engenharia genética (tudo bem explicadinho e resumido para o espectador não se perder).

Por outras palavras, é Will Smith contra Will Smith, um mercenário à beira da reforma contra o seu enérgico e vigoroso clone (o ator joga na mimetização das diferentes nuances da sua carreira). Soa a telenovela, mas a trama risível é uma chave de ignição para um filme de ação com uma qualidade invejável dentro do género nos dias de hoje, e basta ver quem está por detrás deste projeto: Ang Lee e toda uma equipa de coreógrafos experientes (Jeremy Marinas e Emmanuel Manzanares), que contaminam as sequências-limite, dando-lhes os ares revitalizadores que Hong Kong sempre incutiu no género.

Felizmente, essa ação encontrou estadia em Hollywood, cujos tiques se tornaram tendências incentivadas pelo culto de John Wick e seus derivados, o que se pode verificar no último “Missão: Impossível”, que por sua vez confiava no físico e empenho de Tom Cruise.

Com o poder da edição sobre os planos-sequência (e uma certa e emprestada vénia à linguagem dos videojogos), e uma dose explosiva de adrenalina e sobretudo de estilo, estão configurados os ingredientes para muitas das bem conseguidas cenas de pancadaria, tiroteios e perseguições de mota pelas ruas de Cartagena (Colômbia) que “Projeto Gemini” tem para oferecer.

São cenas máximas em choque com os mínimos transmitidos pelo restante cardápio, mais do que o apetite pela sofisticação de Ang Lee (que juntamente com James Cameron se tem empenhado em consolidar os avanços tecnológicos com o conceito "blockbuster").

"Projeto Gemini": nos cinemas a 10 de outubro.

Crítica: Hugo Gomes

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