A HISTÓRIA: Mulan, a espirituosa e determinada filha mais velha de um honrado guerreiro, vai enfrentar os seus medos e mostrar a sua coragem para defender o seu povo, ao disfarçar-se de homem para proteger o seu pai. Quando os mongóis, ofendidos com a construção da Grande Muralha, prepararam-se para invadir o seu país.

"Mulan": disponível no Disney+ a partir de 4 de dezembro.


Crítica: Filipa Moreno

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Como filme, a nova versão de “Mulan” é uma vítima dos tempos: foi adiada no contexto da pandemia e a "aposta histórica" da Disney perdeu ímpeto e entusiasmo.

A conjuntura acabou por também fazer com que perdesse a estreia no grande ecrã, chegando agora aos portugueses através do Disney+. E é inevitável dizer que desilude, mas importante reconhecer o que há de bom no filme de Niki Caro.

É arriscado pegar num clássico da Disney e transformar personagens animadas em seres que habitam o mundo real. Não há dragões (que não são lagartos) enviados pelos antepassados para proteger a jovem guerreira que toma o lugar do pai, um veterano envelhecido, no exército do imperador chinês. E os grilos não são dotados de consciência falante e os cavalos não se riem de desgraças alheias. Resumindo: “Mulan” partiu logo em desvantagem por não ter três das personagens mais interessantes do clássico de 1998 e é impossível ver a nova versão sem sentir falta das falas de Mushu.

A história foi adaptada e também aí perdeu encanto. Em vez de um dragão protetor, o lugar da fantasia é dado à feiticeira Gong Li (Xianniang), que se une aos guerreiros Rouran e enfrenta um debate interno profundo: por ser mulher e feiticeira, não tem lugar na sociedade chinesa. Além de uma caracterização brilhante, com um guarda-roupa fantástico a simular a sua transformação num falcão, a personagem destaca-se pelo reflexo de certas características da própria Mulan (Liu Yifey).

O encontro entre as duas serve o propósito da história – mais vincado em 2020 do que em 1998 – de colocar o tema do feminino no centro da discussão. Um dos méritos da Disney sempre foi o de desconstruir preconceitos em tenra idade e aqui surge um: por que não pode uma menina ser uma guerreira?

O tema continua relevante. Mas a Mulan de 2020 nunca lhe dá a manifestação que merece. Não há uma explosão pessoal na história, nenhum momento revelador. Em vez disso, a personagem é sempre contida, como a sociedade imperial chinesa dita que deve ser o comportamento de uma mulher. Contida, sem nunca revelar a sua força interior.

A mesma palavra serve para descrever o reencontro com a família, pós-aventura, quando o diálogo entre Mulan e o pai é aborrecido e anticatártico. Por isso, o resultado é um filme morno, bem-intencionado, mas desprovido de emoção e onde até os bons momentos de ação perdem brilho, encaixados nas experiências limitadas de "cinema em casa" (merece destaque o desempenho de Jason Scott Lee como líder dos Rouran, que traz a marca assustadora que se recomenda a qualquer bom vilão).

Na verdade, cabe às memórias de infância dar cor a este novo "Mulan". Sempre que os acordes de “Reflection” começam a soar, vem à cabeça a voz de Christina Aguilera. Só que o filme não aproveita essa força impressionante da banda sonora que tantos de nós sabem de cor e, por isso, afasta-nos do universo Disney, onde sempre entramos de forma deliberada, ansiosa, entusiasmada.

Nesse universo das animações, fomos sempre felizes. E esperamos que as reinvenções Disney dos seus filmes antigos nos façam sonhar, como antes, enquanto crianças com o comando do VHS na mão a fazer "rewinds" infinitos. Não é isso que encontramos na versão de 2020: "Mulan” não ensombra o original nem preenche as memórias de infância com um novo significado. Isto não é necessariamente mau: faz o que pode para ser um filme relevante, o que, nos tempos que correm, é uma missão difícil...

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