A HISTÓRIA: Um jovem é enviado para MACA, uma prisão no meio da floresta da Costa do Marfim governada pelos reclusos. De acordo com a tradição, aquando do nascer de uma lua vermelha, o Chefe designa-o como o novo Roman - Contador de Histórias, encarregando-o de contar uma história aos outros prisioneiros. Percebendo o destino que o espera, o jovem começa a narrar a vida mística do lendário bandido a quem chamam Zama King, não tendo alternativa senão fazer durar a história até ao amanhecer.

"A Noite dos Reis": nos cinemas a partir de 5 de agosto.


Crítica: Hugo Gomes

No coração da selva da Costa do Marfim ergue-se uma prisão de alta-segurança - La Maca -, "refúgio" de alguns dos maiores criminosos do país. Nele, um líder, Barba Negra (Steve Tientcheu), aguarda incessantemente pela sua morte, sabendo que o burburinho da sua inevitável queda motivará uma violenta transição de poder.

Mas este astuto cérebro tem um derradeiro truque: a “condecoração” de um recém-chegado como contador de histórias, apelidado Roman (Bakary Koné), que irá entreter os reclusos durante a passagem da lua vermelha... nem que isso custe a sua vida. O jovem não tem opção: narra as suas aventuras ou morre. Portanto, a história é contada, mas o seu desfecho poderá, também, levar ao seu fim.

Roman é a nova Sherazade, a rainha aprisionada e condenada à sua fatal noite de núpcias no intemporal literário “As Mil e uma Noites”, cujo adiamento da sua sentença dependerá do seu talento oratório. Exímia narradora, Sherazade levava o seu rei aos locais mais remotos e exóticos, às criaturas mais fantásticas e aos heróis mais destemidos, numa interminável história de fantasia. Em relação a Roman, o ponto de fuga das suas intrigas ficcionadas encontra-se na ascensão e queda do seu parceiro do crime - Zama King - num percurso que interliga reinos esquecidos e mágicos até as aspirações ao universo gangster e de um determinado filme brasileiro.

Por entre falsos flashbacks, “A Noite dos Reis” banha-se nos reflexos escarlates da tal lua vermelha, convertendo os reclusos numa animada massa humana que interage organicamente com o relato do especial orador. Curioso assalto, visto que o filme do costa-marfinense Philippe Lacôte (“Run”) abre com um possível e enésimo ensaio de realismo formal para depois devolver uma abordagem quase "shakespeariana" das suas vontades. Perde-se a rigidez, contrai-se uma fixação pela representação e pela encenação automática.

“A Noite dos Reis” é, curiosamente, uma produção africana (Costa do Marfim e Senegal partilham encargos com França e Canadá) que parece fugir dos estereótipos vincados desse cinema que pouco nos chega, para se assumir num enxurrada de metáforas à identidade do continente. Nada aqui é garantido e a jornada pseudo-épica de Zama King estabelece o paralelismo com um país e as suas condições e relações históricas, sociais e políticas.

Como Roman menciona, interrompido agressivamente pelo seu "faminto" público: “Política não! Aqui não se fala de política”. A resposta do tal contador de histórias: “foi a política que transformou Zama”. E através deles percebemos as diferentes transformações de um país, de uma nação ou, simplesmente, de um povo.

"A Noite dos Reis" é um conto dentro de um conto onde prevalece a arte oratória, o folclore africano ao serviço de uma contemporaneidade.

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